Ciências sociais do esporte: além da crítica ou do caminho do aperfeiçoamento
Hugo Lovisolo é doutor em Antropologia Social (1987) e pós-doutor pela Universidade do Porto (1996). Escreveu, entre outros trabalhos, Terra, trabalho e capital (ed. Unicamp) e Atividade física, educação e saúde (ed. Sprint, 2000).
O tratamento dos esportes de rendimento ou espetáculo, pelas ciências sociais, e especialmente do futebol, essa paixão dominante na América Latina, passou por transformações significativas nos últimos vinte anos. Até a década dos anos oitenta, grosso modo, dominava uma perspectiva crítica, influenciada pelo marxismo e também pela Escola de Frankfurt que, trocando em miúdos, considerava o futebol uma variante do ópio dos povos, uma poderosa força de alienação dos dominados, de distanciamento, portanto, de seus verdadeiros interesses emancipatórios. Domina hoje uma interpretação quase oposta: o futebol, e de modo geral o esporte, tornou-se escola de aprendizado da igualdade e da justiça, de identidade e expressão do nacional ou regional, de integração social e por aí adiante. Temos, portanto, uma significativa mudança nas interpretações ou teorias postas em jogo para analisar o esporte.
No caso do Brasil, os trabalhos excitantes de Roberto DaMatta contribuíram significativamente para essa mudança. Creio que DaMatta abriu as comportas para a mudança no tratamento e nos preparou para aceitarmos a influência de Norbert Elias, e seu grupo de colaboradores, que colocou o esporte dentro do processo civilizador, destacando a sua importância na dinâmica e controle das emoções, no seio de mudanças gerais dos padrões de relacionamento, das configurações das sociedades. O enfoque antropológico e histórico passou a ser mais representativo nas análises que a tradição sociológica, marcadamente influenciada pelo marxismo na América Latina, dominante no "período" anterior.
Pretendia destacar que esta mudança de tratamento foi tanto interpretativa como emotiva. Contudo, nesta intervenção, concentrarei meus comentários sobre a mudança emotiva, porque creio que em relação à primeira temos considerável consenso. Observo que quando digo "mudança emotiva" não estou afirmando que passou a existir um tipo de relacionamento antes inexistente. Estou apenas afirmando que a emoção positiva, os afetos em relação ao objeto de conhecimento, passou a ser reconhecida e valorizada.
Uma atitude generalizada que ainda me surpreende e, reconheço, também me diverte, quando participo de reuniões de cientistas sociais que discutem o esporte, são as declarações de amor ao mesmo e, sobretudo, ao futebol. Os analistas aparecem como enamorados, entusiasmados, seduzidos pelo objeto. Não raro, os cientistas sociais passam a relatar anedotas e "causos" da mesma forma que torcedores e jornalistas. Não poucos, lembram um repertório invejável de dados e "estórias". Este domínio do emotivo, esta paixão pelo objeto, sugiro que aproxima o cientista social do torcedor e do comentador esportivo.
Creio que existe um modelo bem mais erudito do qual também nos aproximamos: o do crítico de artes. Os críticos devem manifestar sua paixão e sentimentos positivos pela arte, embora possam ser negativos diante de obras particulares. Da mesma forma, podemos afirmar sentimentos negativos diante de um jogo de futebol. Contudo, podemos fazer isso porque amamos a Arte ou o Futebol. Assim, a epistemologia da crítica artística parece demandar como condição de produção do conhecimento a relação emotiva positiva com seus objetos. O distanciamento, a falta de sentimentos, a equanimidade é suspeita na crítica das artes e, tudo indica, estamos mais perto de Nietzsche (a defesa da paixão) do que de Espinoza (a defesa da equanimidade). Não exigimos, em contrapartida, relação emotiva daquele que estuda as partículas físicas, a patologia dos tecidos ou o comportamento dos astros. Eles podem pessoalmente estar ou não apaixonados por seus objetos, contudo, seus sentimentos não formam parte das condições de conhecimentos e, ainda, alguns podem considerar que se existissem seria melhor eliminá-los ou controlá-los.
O que os torcedores, jornalistas esportivos e críticos de artes tem em comum? A emoção em relação ao objeto. Eles gostam um bocado da arte ou do futebol, também é possível gostar de ambos. E isto significa que mediante emoção se situam na perspectiva dos de dentro, do pertencimento ao campo de significados das obras que analisam. Mais ainda, eles afirmam que para falar com autoridade de arte ou de esportes é necessário amá-los de alguma forma. É necessário sentir o pertencimento ao campo de suas práticas e sentidos. A epistemologia que professam afirma que apenas se pode falar desde dentro. Acreditam que a perspectiva dos de dentro, dos que amam ou gostam, é superior àquela dos de fora, os indiferentes. Temos, assim, uma reviravolta na relação com os modelos anteriores nos quais as emoções ou não "apareciam" ou eram simplesmente negativas.
A mudança que estou salientando parece residir em uma posição epistemológica na análise dos esporte que coloca como condição a emoção, o pertencimento, o estar dentro para deles falar. Poderíamos dar o nome de "romântico" a esse complexo de sentimentos e crenças, em oposição a uma visão "iluminista" que apostaria no distanciamento e no controle dos sentimentos como caminho de conhecimento.
Se afirmamos, como fazíamos, no passado recente, que o esporte "é o ópio do povo", estamos nos situando fora e, então, deriva-se que não se pretende manter o esporte nem ajudar a um desenvolvimento superior, ético ou estético. Da mesma forma, se afirmarmos que a religião "é o ópio dos povos" é porque já estamos fora e, portanto, não temos nenhum compromisso com sua sobrevivência. Estamos dizendo que é um "vício" e que passaríamos melhor sem ele. Estaríamos afirmando que uma cultura nova deve ser uma cultura sem religião, da mesma forma que poderíamos afirmar que uma nova economia deveria ser sem exploração, uma política nova sem líderes políticos e um novo esporte sem competição. Pessoalmente, me resulta difícil imaginar uma cultura sem religião, uma economia sem algum tipo de exploração, uma política sem líderes e um esporte sem competição. Alguma coisa central está sendo mudada em cada um desses campos de atividade. Talvez devêssemos mudar as palavras, pois estamos afirmando com a qualificação de "nova" que dimensões centrais dos campos, com as quais recortamos e participamos de seus entendimentos, foram eliminadas. Em oposição, quando nos situamos dentro, apenas podemos fazer duas coisas: deleitar-nos no elogio ou postular reformas que o aproximem de um ideal melhor. Os jornalistas esportivos diariamente realizam esta operação, manifestam o seu amor e reclamam por mudanças que melhorem o campo do esporte. Reconhecem a ambigüidade, sobretudo ética, do esporte, contudo, acreditam que podem fazer dele alguma coisa melhor, depurá-lo do lado negro fazendo que aumente o respeito voluntário pelas regras e diminua a violência entre jogadores e torcedores.
Uma boa parte dos que falam desde dentro do esporte, e que se consideram críticos do esporte que "está ai", postulam reformas para o seu aperfeiçoamento. Um exemplo notório é a crítica à mercantilização do esporte ou perda de uma condição originária, geralmente pura, pelo domínio da exploração capitalista. Essa crítica já estava na famosa obra de Huizinga, Homo ludens. Claro exemplo também são os professores de educação física críticos do sistema do esporte do rendimento, amam o esporte e pretendem reformá-lo para que perda seu caráter comercial, competitivo impuro ou degradado. Contudo, algumas de suas propostas sobre o esporte modificam tanto os seus aspectos centrais que dificilmente concordaríamos em chamar o que resulta de esporte. Por exemplo, quando parecem pretender eliminar a competição do esporte, talvez motivados por declarações um tanto fortes dos membros da escola de Frankfurt. O esporte socialista durante sua vigência tinha dois traços que o distinguiam do capitalista: era mais utilizado em benefício do Estado do que dos particulares e recompensava muito mais com benefícios não monetários do que monetários, o resto, isto é, o central, continuou igual.
As experiências reais parecem indicar que há um núcleo duro do esporte que não pode ser modificado. Defendo o ponto de vista de que a relação emotiva atual com o esporte no campo da ciências sociais está levando na direção de teorias ou interpretações que destacam seus traços positivos, quer enquanto realidades presentes, quer enquanto aperfeiçoamento para o futuro se superarmos as suas falhas ou degradações atuais. Da mesma forma que uma nova religião pode apenas manifestar uma vontade de superação das falhas da antiga, jamais uma eliminação dos aspectos centrais da religião.
Concluindo, a análise atual das ciências sociais do esporte baseia-se no estabelecimento de relações emotivas, de pertencimento, de estar dentro, que leva apenas na direção do aperfeiçoamento do que está ai. Assim, também no campo do esporte, se manifesta o espírito reformista, incrementalista e aperfeiçoador da época?

